mercredi 10 septembre 2014

enfermagem no Québec (post em português) - capitulo 6, final

Nao vou encher linguiça sobre o curso IPS, ja que nos 2 ultimos anos foi basicamente sobre isso que o blog tratou. Vou dar continuidade à novelinha sobre o dia-a-dia de enfermeiro aqui no Québec ...

ja vimos =
a fase estagiaria
a fase CEPI
ser enfermeira em clinica médica em région
ser enfermeira em CHSLD e CLSC (EJF e cardio)
ser enfermeira em EFJ

Agora é a vez de um pouco de comunitario, volet SAD, soins à domicile.

Como volto para o estagio IPS em janeiro-2015, a opçao mais logica foi conseguir um emprego temporario. E aqui no Québec, como enfermeiro, emprego temporario é algo muito facil de ser obtido, especialmente pelas agences de placement.
Nao vou discutir se é justo ou nao o governo aceitar a existência das agências. Nas atuais condiçoes, as agências acabam desempenhando um papel importante, de prover a mao-de-obra enfermeira em prazo curto, cobrindo as lacunas do sistema e mantendo a maquina funcionando.

Pois bem, estou com 2 agências. Em ambas eu faço basicamente do SAD-PALV (soins à domicile, perte d'autonomie liée au vieillissement). O que quer dizer essa letraiada toda?
Sao pessoas idosas que moram em suas casas ou residenciais (sem ser um CHSLD!) e que, por uma razao ou outra, precisam do serviço de enfermeiros e nao podem se locomover até o CLSC, seja por questao financeira, logistica ou incapacidade fisica.
Eu moro em Salaberry-de-Valleyfield e acho que escolhi mal as agências, pois nenhuma delas me manda para CLSC perto daqui rsrs ... 

Mas, indo ao que interessa, como é a rotina?
Numa das agências (chamarei de *A*) eu tenho um horario fixo, de segunda à quinta, das 13 às 21h. Eu sou a *infirmière support* e respondo pelos casos que as enfermeiras do dia nao conseguiram terminar ou que exigem 2 visitas. Neste local de trabalho, tenho 4 tipos de clientes:
1) os que devem receber uma avaliaçao de estado geral, feita periodicamente (normalmente a cada mês)
2) os que recebem avaliaçao de insuficiência cardiaca (a cada semana, 2 semanas ou conforme o quadro clinico)
3) os pontuais, para uma coleta de sangue ou procedimento especifico
4) os crônicos, como curativos e outros procedimentos

Entao, para cada cliente, um tipo de intervençao.

Os clientes do tipo 1 sao idosos que estao em casa, mas que precisam ser monitorados, seja por risco de queda, por antecedentes de fraturas, por estados iniciais de demência, o que for. Cada avaliaçao leva em média 30, 45 minutos e é uma boa conversa, verificaçao de medicamentos, alimentaçao, sono, lazer, moral, com uma parte simplificadissima de exame fisico, normalmente so sinais vitais e uma rapida inspeçao.

Os clientes do tipo 2 sao insuficientes cardiacos, a maior parte com oxigênio em permanência e o protocolo de observaçao é mais restrito, ha todo um check list a ser verificado a cada visita e o exame fisico é ligeiramente mais completo. Levo quase 1h nesses casos, é uma avaliaçao de estado geral mais rica em detalhes, e nao podemos deixar um insuficiente cardiaco descompensar, o objetivo é manter o individuo em casa o maior tempo possivel! Alguns possuem protocolo de Lasix, outros nao. Alguns controlam super bem a alimentaçao e hidrataçao, outros nao ...

Os pontuais (tipo 3) podem ser das mais variadas opçoes = seja apenas 1 analise de sangue a ser feita (que devo encaminhar rapidamente para o CLSC), uma medicaçao SC ou IV, via PICC-line, um curativo agudo como pos operatorio, uma colostomia, uma gavagem, etc. Sao visitas rapidas, mas que algumas vezes exigem bate-e-volta, como nos casos de antibioticos que devem ser instalados e desinstalados. Podem ser simples visitas de 20 minutos à longas visitas de 1h, depende do caso.

E a grande massa da minha clientela sao os crônicos, pacientes do tipo 4, com feridas gigantes e normalmente super exsudativas (normalmente ulceras de pressao, ou venosas. Tenho poucos casos de ulceras arteriais). A técnica dos curativos deve ser a técnica *limpa*, ja que essas pessoas estao em suas residências em nao em hospital. Alguns curativos levam quase 1h para serem feitos e as posiçoes nao seguem necessariamente os principios PDSB, nao rs .... Alguns crônicos possuem dossiês especificos para a equipe do soir (no caso, eu e uma outra enfermeira, também de agência), pois os curativos sao trocados 2 ou 3 vezes ao dia. É onde acabo conhecendo os pacientes, onde conseguimos criar uma ligaçao mais profunda e onde a enfermagem ultrapassa a simples técnica, pois a proximidade, o acompanhar o individuo a cada dia abre portas. Sao momentos unicos e eu gosto bastante.

Na outra agência (*B*), a clientela é quase a mesma, o que muda sao os locais de trabalho. Eu estou disponivel com eles apenas durante os finais de semana, pois invariavelmente vao me mandar para Montréal, e é terrivel sair de Valleyfield e ir para Montréal durante a semana! Ja fiz VAD-PALV, VAD-Soins courants e EFJ por essa outra agência. É mais diversificado, dificilmente sei onde vou com muita antecedência e isso é bem incerto, uma vez que podem me ligar às 4 da manha para começar um plantao às 8 (esta no contrato e eu assinei. Até agora o mais tarde que me ligaram foi às 23h, para começar no dia seguinte). Estou pensando seriamente em ficar apenas na agência *A* ;-)

Para o SAD, o material de base para curativos é fornecido pelo governo (gases, NS 0,9%, bandagens, kits, gel, etc.) Caso um curativo de prata, ou iodo, ou filme transparente especifico, curativos de acrilico ou mousse seja indicado, esse produto devera ser precrito pelo médico e a familia ou responsavel devera se encarregar da compra. Algumas vezes eles conseguem cobertura pelos seguros e mesmo pelo governo, mas normalmente assumirao o custo total, que pode ser bem caro (ha curativos que custam uns 2000$ por mês!). Quem determina o plano de soins das feridas é a enfermeira, mas em alguns casos elas podem pedir a intervençao ou conselho da estomaterapeuta. Eu, como *support*, so sigo o plano estabelecido e posso dar uns pitacos, mas nao tenho o mandato de decidir qual protocolo, qual tipo de curativo ou qual frequência de troca.

SAD-PALV é uma area rica e muito interessante, sem duvida, mas exige muita locomoçao e com isso, horas de plaisir (NOT!) no trânsito. E eu odeio trânsito! (quem ja leu sabe que escolhi meu primeiro emprego como CEPI visando ir e voltar a pé!). Acho que, como temporario, é interessante, mas nao sei se conseguiria fazer por muito tempo. Ao contrario de EFJ onde tinha 2 ou 3 visitas por meio periodo, no maximo, no VAD-PALV eu tenho de 8 à 9 por dia, e passo de 5 à 6h sem parar, entrando e saindo da casa dos clientes, cobrindo enormes territorios (cheguei a rodar 96km outro dia!) e gastando muita gasolina (que é reembolsada pela agência). É bem cansativo, nao temos as folgas garantidas do bloco operatorio, as vezes eu mal tenho tempo para devorar um lanche (o que é muito em parte minha culpa, eu nao consigo ser aquela enfermeira que simplesmente entra e faz o procedimento. Eu vou interagir com o paciente e sua familia, vou tentar saber se tudo vai bem, vou fazer o procedimento com calma e respeitando as técnicas, e a pressa é inimiga da perfeiçao, nao é mesmo? Acho que sou lerdinha, mas é assim mesmo rs).

O lado ruim, trabalhar en agência significa que eu nao faço parte da equipe, estou la como quebra-galho e em algumas equipes isso é nitido. Na agência *A*, como tenho horario fixo, sinto que a integraçao começa aos poucos a ser feita, os pacientes oferecem seus feed-backs e os enfermeiros conseguem ver a continuidade do meu trabalho, ja recebi elogios na frente da ASI, e elogios sao sempre bem vindos. Na agência *B*, que me oferece sempre coisas pontuais, eu sou apenas o bombeirao mesmo, recebo os casos e uma orientaçao minima, as vezes de apenas 10 minutos sobre as rotinas especificas. Muitos enfermeiros fazem agência pois elas possibilitam um controle quase total dos horarios: uma vez dada a disponibilidade, o enfermeiro tem de 24 à 48h para anular aquele plantao. Cada enfermeiro pode dar a disponibilidade que lhe convier, seja 1 dia ao mês ou 5 dias na semana, e no horario e setor que convier. Eu pedi CLSC, e recebi o que pedi. Nao abri exclusivamente para EJF pois sei que é uma das areas que menos usa os serviços de agências. Nao pedi centro hospitalar pois minha ultima experiência é aquela de Témis, e acho que estou enferrujada, e nao pedi CHSLD pela mesma razao. Eu gosto do comunitario, gosto de estar na casa das pessoas e mantê-las por la. Se eu tivesse aberto minhas opçoes para todos os setores, teria trabalho 24x24, sem duvida!
Por enquanto, essa forma de trabalho esta me servindo, eu consigo organizar meus horarios e recebo direitinho.
E a rotina, o dia-a-dia ... bem, dirigir 96km num dia de trabalho me faz me sentir uma taxista, mas eu sei que é temporario ;-)

Entao é isso, a novelinha acaba por aqui. Sou enfermeira no Québec desde 2009 (estagiaria em 2008!) e acho que ja rodei um pouquinho a Belle Province, ja experimentei alguns setores e pude estabelecer o tipo de profissional que quero ser por aqui. Ha enfermeiros que saem do estagio, conseguem um emprego como CEPI e nao mudam de setor, parabéns para eles! Admiro mesmo. 
A variedade de locais e de pessoas com quem trabalhei nesses anos todos é muito rica. Vi pessoas em diversos momentos, do nascimento à morte, passando pela sala cirurgica, estive com pacientes em casa e no hospital. O dia-a-dia de uma enfermeira é unico. Nao sao apenas curativos e injeçoes. Enfermeiros estao la para acompanharem as pessoas, escutamos, oferecemos apoio, valorizamos o que a pessoa tem e faz de bom, ensinamos e compartilhamos para que ela melhore ainda mais. Aceitamos o fim, aceitamos o que nao podemos mudar. Enfermeiros nao sao anjos com asas, sao profissionais com uma formaçao complexa no dominio da saude, com uma parte de ciências humanas que é imensa. Mais do que saber instalar uma sonda ou conseguir puncionar uma veia de primeira, o enfermeiro deve saber ouvir, deve estar presente, manter uma présence vraie e aceitar o outro. Compartilhamos bons e maus momentos com desconhecidos que aprendemos a respeitar, sao historias fantasticas, de pessoas que possuem bagagens de vida interessantissimas. Cada vida é unica, e poder compartilhar 20, 30 ou 60 minutos com essas pessoas provoca imensas reflexoes. Nao ha um dia em que nao aprenda algo, nao ha um dia em que nao deixe algo de mim naqueles que vi e que atendi. É uma troca, e estar aberto à isso é fundamental.
Aos enfermeiros brasileiros que leram a novelinha, espero que esses relatos tenham mostrado um pouco como é o dia-a-dia enfermagem no Québec. Nao posso generalizar, nem todos enfermeiros atuam da mesma maneira. Essa é a minha descriçao da enfermagem que eu, Gabriela, pratico, e os setores onde eu atuei. Espero que cada um possa construir sua propria historia e manter a chama da enfermagem acesa entre nos.
É uma ciência e uma arte. Hoje eu sei disso.

Termino a saga agradecendo a universidade que me proporcionou toda minha base, sem ela nao estaria aqui hoje e nao seria o que sou. 


source https://encrypted-tbn2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQ63z_6dKCoxre2lu87whuz7RHcIA68bdhmwbJ8hS0CLsiWfN5y




6 commentaires:

  1. parabéns! Vc é bem lúcida em seus comentários! Minha esposa tb é enfermeira e estamos no processo. Adoramos seus relatos! Força Foco Fé!

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    1. obrigada Rafael. O processo é chato e nao me canso de dizer que é uma boa chegar aqui ja com o *ok* da OIIQ em maos e um francês intermediario-avançado. Sem esses 2 pontos, o enfermeiro deve ter consciência de que o processo pode levar muito tempo (especialmente se o francês for so **bonjour, ça va**). Sucesso no caminho de vocês.

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  2. Oi Gabi!
    Excelentes relatos, posso divulgar la no blog essa sua série, vai que tem alguém que passe por la e ainda nao tenha passado aqui...

    Bjinz
    Erika

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  3. Oi Gabi, tudo bem? Tive uma dúvida sobre o processo você poderia me respondê-la por favor?
    É o seguinte: você fala tanto desse 'OK' da Oiiq, mas afinal de contas o que seria ele, a prescrição de estágio e ou AEC? Se sim, você saberia me dizer se você o recebe(em casa por correios, e-mail) ou você só vai ficar sabendo se tá tudo certo comparecendo ao bureau de registraire pessoalmente? Digo isso porque meu processo já está na parte final de análise, já tenho número de dossie pela Oiiq, évaluation comparative já foi expedida e não sei realmente como ficarei sabendo dessa 'desição', se está tudo certinho mesmo.Obrigado e abraço!

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  4. Mais um ótimo post! É bom conhecer o lado bom da profissão! :) bjs Jaq

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  5. Ce commentaire a été supprimé par son auteur.

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